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Centro de Ressocialização tem quase 300 presos atuando em atividades laborais

De marcenaria a padaria, passando pelas salas de aulas, o CRC tem 10 frentes de trabalho
Fernanda Nazário | Sejudh

Sejudh
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O Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC) é uma unidade prisional de referência em Mato Grosso em atividades laborais e educação. O local tem mais de 10 frentes de trabalhos internos que emprega 298 reeducandos, além dos 100 presos que exercem funções extramuros em serviços como: limpeza geral, jardinagem, reformas e recepção em órgãos públicos. O objetivo é promover a capacitação e qualificação dos custodiados para a reinserção adequada na sociedade.

Quando entrou no Sistema Penitenciário, há quatro anos, o reeducando Rubens Alves de Lima, 36, não tinha profissão. Hoje, ele tem planos e trabalha na marcenaria da unidade fabricando diversos móveis de madeira.

“Trabalhar aqui foi a melhor coisa que aconteceu. Aprendi algo que não sabia e estou gostando muito. Ao terminar de cumprir minha pena, vou ter meu próprio negócio”, planeja Rubens.

São fabricados na marcenaria: armários, cadeiras, mesas, bancos, parquinhos entre outros móveis usados em órgãos públicos, escolas e creches. As madeiras utilizadas na fabricação são provenientes de apreensão e doadas pelo Poder Judiciário do Estado. 

Humanizar e ressocializar

Além da marcenaria, os recuperandos trabalham em outras atividades, de segunda a sexta-feira, das 07 às 16h30, como na fábrica de móveis de fibra sintética, horta, usina de compostagem, granja, banda musical, coral, padaria, confeitaria, artesanato, corte e costura, entre outros setores internos da unidade. Ao promover a ocupação dos recuperandos, a unidade está diminuindo a ociosidade entre eles e preparando-os para o convívio em liberdade.

“Nossa proposta é humanizar e ressocializar para reintegrar o preso ao convívio comum de forma digna. A unidade visa transformá-los em uma pessoa melhor do que a que entrou. Para isso, precisamos tirá-lo do ócio e mostrar que é possível mudar”, explica o  diretor da unidade, Winkler de Freitas.

Arte para a mente

Quem nunca ouviu aquele famoso ditado popular: ‘Mente vazia, oficina do diabo’?. O interno J. B., 68 anos, conta que essa frase tornou-se um bordão em sua vida e a usa como um mantra. Então, para manter a mente ocupada e o corpo em ação ele faz adaptação dos quadros do pintor brasileiro Romero Britto. Ele pinta em telas ou a madeira e decora com areia colorida. Para ele, isso é terapia e ainda possibilita uma qualificação, que contribuirá para remuneração fora do crime.

Integrante da ala Arco-íris, área voltada para o público LGBT no Centro de Ressocialização, "Ana Hickmann", 30,  também faz pinturas em telas. Ela diz que não se imagina em uma penitenciária onde ficasse trancada o tempo todo sem fazer nada. “Aqui temos oportunidade de locomoção, fazer artesanato e de mostrar nosso talento”, conta, e se diz agradecida pela oportunidade ofertada aos internos. 

Os quadros produzidos pelos dois reeducandos conquistam os olhares de quem os vê. Já os ouvidos são atraídos pela melodia entoada pelo grupo musical do CRC. João Cândido, 51, recluso há quatro anos, é o sanfoneiro da banda.  Ele toca desde criança e confessa não saber fazer outra coisa. “Música é tudo para mim. Esse é o meu serviço e lá fora sou bastante procurado para integrar bandas. Achei que ia morrer aqui dentro sem minha vocação, mas graças a Deus estou tocando e sou muito grato por isso”.

Cinco presos integram o grupo. Eles tocam sanfona, violão, bumbo, pandeiro meia lua e também cantam. Os instrumentos foram doados pelo grupo evangélico Louvor e Aliança, Poder Judiciário e o locutor Arizona.

Arando a terra

Jones Alves da Guia, 31 anos, é responsável pela horta. Ele acredita fielmente na frase bíblica do livro de Lucas: “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus”. Ele afirma que pretende seguir em frente, não olhar para o passado e, no que depender dele, sairá da horta somente quando terminar de cumprir a pena.                                                                                 

O adubo usado na horta é fruto da pequena usina de compostagem que existe no local, que também fica sob o comando de Jonas junto com a servidora e zootecnista, Karini Cristine Rodrigues, e de mais um reeducando. Karini explica que a usina é resultado de seu trabalho de conclusão de curso.

Na compostagem é usado o pó de serra e o resto de alimentos que são colocados em caixas d' água de mil litros cada. Em três meses, a temperatura chegou a 40 graus e todos os micro-organismos nocivos que estavam no material foram mortos sobrando  só adubo orgânico e terra preta que são aplicados na horta.

Na usina também estão sendo criadas cerca de 4 mil minhocas para uso na granja e, futuramente, comercializadas.

Granja

O local possui 460 aves entre patos, codornas e galinhas. José Carlos Oliveira, 72 anos, é o responsável pela granja e gosta muito do que está fazendo. “Estar neste posto é maravilhoso. O presídio foi transformado em benefício do preso para que saiamos daqui com experiência e esperança de uma vida melhor”.

Os 298 presos que realizam atividades laborais recebem remição da pena pelo trabalho realizado, conforme prevê a Lei de Execução Penal (LEP) que determina que a cada três dias, um dia é descontado na pena recebida. Somente os que trabalham na padaria são remunerados com um salário-mínimo, conforme previsto nos Artigos 39 e 41 da LEP. Já os que exercem suas funções na marcenaria podem, toda quinta-feira, fabricar produtos para utilização própria ou para a família comercializar.